domingo, 8 de setembro de 2013

Capela Palatina

Capela Palatina

 * Em cima: corte da capela palatina. Em baixo à esquerda: planta da capela (octógono e de ambulatório) já com o coro gótico e as capelas radiais de diversas épocas. Em baixo à direita: corte da capela.

A capela, mandada erigir pelo pai de Carlos Magno no local onde seria depois construída a da atual catedral, era na altura usada para albergar uma relíquia, a capa de São Martinho (em latim capella). A construção fica simplesmente conhecida por capela, o que acaba por levar à disseminação genérica do termo capela como um pequeno oratório privado.
A análise da estrutura deve ser feita além da sua descrição formal. Os seus elementos são reveladores de que a construção da capela é também uma antecipação dos objetivos políticos de Carlos Magno, uma espécie de propaganda política. A capela deverá ser a imagem da Nova Jerusalém, Carlos Magno o representante de Deus na Terra, e Aachen a segunda Roma.
A escolha de uma planta de oitos lados não é acidental, mas sim uma escolha consciente e repleta de significado. O número oito simboliza o poder celestial na Terra, o dia após o sétimo dia da criação, a ressurreição de Cristo e o começo da perfeição. A figura geométrica octógono, já símbolo da perfeição desde a Antiguidade, vem reforçar o simbolismo anterior. É a fusão entre o infinito, o céu (círculo) e a a área delimitada, os quatro pontos cardeais terrenos (quadrado).
A capela palatina é construída segundo um projeto de Otão de Metz, mestre de obras que notoriamente dominava a arquitetura clássica, mas que adicionou a este edifício um cunho mais maciço, compacto, de linhas definidas. O lado ocidental apresentava na altura um conjunto novo conhecido por Westwerk, e que se desenvolveria posteriormente nas fachadas de duas torres da arquitetura medieval. No século XIV é edificada a atual torre, com capelas laterais góticas na zona alta para albergar relíquias, e onde se encontra hoje o portal barroco de entrada para a catedral.

* Interior da capela palatina (octógono) com o candelabro de Barbarossa e vista para o coro gótico.

O núcleo da capela consiste num elemento elevado, de dois andares, de planta octogonal (de oito lados), rematado por uma cúpula (o atual telhado em gomos é um acrescento do barroco). No seu interior o octógono é circundado por um de ambulatório de 16 lados, tipologia que tem aqui uma das suas primeiras aplicações.
A formar e suportar a estrutura do octógono estão oito grandes pilares gêmeos (adjacentes) interligados por arcos de volta-perfeita. O piso superior apresenta, entre cada pilar, uma divisão feita por duas colunas mais finas separadas em dois níveis diferentes de altura pela aplicação de uma banda horizontal de mármore com três arcos. Este piso superior abre-se para o octógono e possui, entre cada pilar, vedações em bronze. Acima deste segundo nível eleva-se o tambor da cúpula (paredes que a antecedem) onde se abrem janelas grandes e simples e onde inicia o revestimento a mosaicos que se prolonga na totalidade da cúpula. A cúpula, feita de tijolo, é composta por oito gomos que surgem do prolongamento dos pilares da base, notando-se aqui um afastamento das técnicas já conhecidas na antiguidade para atingir uma maior leveza neste tipo de construção.
A funcionar como altar existia um pequeno espaço retangular onde hoje se encontra o coro gótico revestido a vitrais.

Os mosaicos

Inicialmente os pilares de pedra não estariam revestidos a mármore, mas apresentariam uma superfície mais rude, talvez em tons de vermelho, assim como provavelmente o de ambulatório, atualmente revestido a mosaicos, teria um tratamento mais simples e despojado. O facto é que também os atuais mosaicos da cúpula são de uma altura muito posterior, cuja composição foi baseada numa imagem produzida por Ciampini em 1690, com base nos mosaicos originais de inspiração bizantina, introduzidos em 804. Levando em consideração a imagem barroca, a composição original teria como tema a Maiestas Domini, objeto que já vem no seguimento de uma longa tradição cristã com origem no período paleocristão. A dominar a composição está Cristo no trono ladeado por dois anjos, e, ao longo de toda a base do perímetro da cúpula, vinte e quatro reis oferecendo as suas coroas a Cristo. Esta imagem, semelhante à imagem presente no Livro da Revelação de São João, tem como objetivo simbólico a divinização e legitimização de Carlos Magno como imperador.

O trono 

* O trono de Carlos Magno no segundo piso da capela palatina da Catedral de Aachen.

Ao segundo piso da capela, todo ele orientado visualmente para o centro aberto do octógono, tem-se acesso através das escadas existentes nas duas torres do de ambulatório. Neste segundo nível, onde iniciava a área do soberano, encontra-se o trono de Carlos Magno. A primeira impressão ao observar o trono é que se trata de um trono simples, demasiado simples para um imperador. Uma observação mais cuidada revela uma estrutura composta por peças de mármore que possivelmente teriam estado antes noutro lugar ao serviço de outra função. Os seis degraus (em número igual aos degraus do trono de Salomão descrito no Antigo Testamento) são formados a partir de elementos de um antigo pilar. O trono em si é composto de placas de mármore, possivelmente originárias de algum pavimento da Roma Antiga, apoiado em suportes igualmente toscos. A possível razão para esta “colagem de retalhos” será talvez o desejo de se utilizar material proveniente de algum lugar antigo e sagrado para o cristianismo. O altar acoplado na parte posterior é um acrescento de uma época mais recente.
Há quem questione se será efetivamente este o trono de Carlos Magno, apontando antes para a altura da coroação de Oto I em 936. No entanto, e de acordo com investigações recentes, tudo indica que só poderá ser este o trono original. Um dos fatos que corroboram esta afirmação é a sua localização. Não só se encontra na área de maior primazia arquitetônica, no segundo piso, como também se encontra no eixo de visão dos altares. Este é o local mais alto da capela, de onde o imperador pode seguir o serviço religioso a uma certa distância. Outro reforço simbólico da localização é a representação, na cúpula, de Cristo entronado, que se encontra na parte oposta à do trono e de frente para o mesmo.

Os bronzes e as colunas

As elegantes colunas de capitéis coríntios do segundo piso, distribuídas em dois níveis de altura e percorrendo o perímetro do octógono, são possivelmente os elementos mais antigos da catedral. Foram importados por Carlos Magno de Itália (Roma e Ravena), e retiradas em 1794 pelo exército da Revolução Francesa aquando da sua ocupação da região. Nessa altura são levadas para França e, mais tarde, em 1814, reclamadas de volta, quando algumas delas já se encontravam em exposição no Museu do Louvre. Atualmente a catedral expõe vinte e duas das colunas originais.
As vedações em bronze do segundo piso, posicionadas nas aberturas entre os pilares, são outra das preciosidades originais da capela. São da altura da construção inicial e produto da fundição de Aachen, de grande qualidade técnica e artística, reunindo nos seus padrões elementos decorativos romanos, celtas e francos em grande harmonia. As composições são diferentes entre si e cada vedação é idêntica à sua oposta (do lado oposto do octógono). Somente a vedação em frente ao trono apresenta uma composição única de grande requinte e originalidade decorativa.

Trabalho sobre a capela:

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